vou ficar aqui

Atormentam-me os fantasmas
que brotam no meu jardim
como ervas daninhas 
Num mar de escuridão
cravo as minhas mãos em ti
e rasgo-te a pele.
Ao longe ainda ouço 
quando perguntas baixinho às gotas da chuva:
O que estás fazer?
Nesse momento tapo os ouvidos
e fecho os olhos. Não ouço. Não vejo.
E consigo ir ainda mais fundo.
Até que o teu grito me faz estremecer o corpo.
Congela-se o tempo
e tu ficaste.
Resistente e belo ao meu lado
só à espera que eu acordasse. 
Porque tu sabes que eu caio no chão
quando não consigo respirar.
No teu desespero encostas a boca à minha
para que eu volte a acreditar.
É quando a evidência dos sussurros 
nos devolve o sorriso morto. 
Primeiro o meu, depois o teu.
E na intensidade do impossível 
o deslumbramento aquece-nos o coração.
É aí que repito em voz alta: 
vou ficar aqui.

mud

Naquele momento, tudo se apagou à tua volta. Sei que era final de tarde e haviam pessoas que conversavam nas mesas à nossa volta. Outras passavam. Algumas corriam. Também recordo bicicletas. E cães. Pedimos uma garrafa de vinho e carpaccio. E um queijo, Chèvre, com mel e nozes. Muito bom. Ambos concordamos. Começamos a falar. Gostos comuns. Em ritmo acelerado. Os temas surgiam sem sentido, sem razão. Em cascata. Saltávamos de um lado para o outro como crianças que correm nos jardins. Livres. Ríamos e sorriamos muito. O sol caía no horizonte. Por vezes, olhava para o farol. No entusiasmo de uma partilha as tuas mãos dançam para mim com delicadeza. Ouço a tua voz. Encanto-me. Tenho de fazer um esforço para concentrar-me no que dizes. Escuto as tuas palavras com atenção. Sim, o teu lado negro. Ambos temos. Digo em concordância. Falas de Livros. Autores. Um, em particular, que admiras. Lobo Antunes. Uma frase que leste e que recordas várias vezes. A vida é como um mergulho num rio de águas escuras, temos de ir ao fundo e voltar, respirar e olhar as mãos cheias de lama. Estremeço. Sinto um calafrio. Desapareço em ti. Só tu existes. Para sempre. Naquele momento, tudo se apagou à tua volta.